"Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chovem, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão"
É assim que resolvi começar este pequeno texto, como um recado para todos os meus amigos que moram fora de São Paulo, que estão longe daqui; talvez a emoção fale mais alto mesmo e, por isso, tomado pelas expectativas, gostaria de mostrar um pouco do que tem sido viver a experiência corintiana na Libertadores até então, até este momento em específico.
Em todos os jogos, quando o time adversário errava um gol, eu ouvia um uníssono "uuuuuhhhh". Nas poucas, e raras, vezes que o Corintians levou um gol, eu escutava o tradicional paulistano "chupa Corinthians". Mas aí eu te pergunto: e quando o Corinthians ganhava? Ah meu amigo, aí São Paulo inteira acordava, porque o barulho era ensurdecedor, simplesmente isso. São 30 milhões de torcedores divididos territorialmente (apesar de estarem, em grande parte, concentrados por aqui), assistindo aos jogos, em casa ou no estádio, com os amigos ou na fria solidão paulista.
Hoje, acredito que até o Macedinho de Guarulhos, time de várzea pelo qual tenho muito apreço, vai torcer contra: todos são Boca, seja onde for. Na minha amada Freguesia do Ó, por exemplo, cheguei a ver apartamentos com a bandeira do time argentino estendida na janela. Vai entender, né?
Passar pelas ruas de São Paulo hoje é realizar uma verdadeira tarefa de guerra: o barulho ininterrupto dos rojões e fogos, o incessante grito de "vai Corinthians", os carros que buzinam, o sorriso do engraxate, do garçom, dos atendentes e vendedores, dos camelôs e frentistas, das faxineiras, dos porteiros, enfim, de um número expressivo: todos estarão paralisados hoje!
O Corinthians mereceu chegar onde chegou - lutou e conseguiu seu lugar ao Sol neste dia de céu claro. Insistiu que a vaga era sua, que a conquista chegaria, e o grande triunfo está mais perto do que todos imaginam. Pensem em quantos torcedores do Corinthians com mais de 50 anos de vida devem estar loucos hoje? E com razão: é muito tempo, muito sofrimento pra um coração só.
Deus quando fez o corintiano, fez com dois corações: um pra funcionar corretamente, mandando sangue pro resto do corpo; o outro é alvinegro, pra aguentar o sofrimento mesmo. E olha que a discussão por aqui, a mais acalorada, não é nem qual time será campeão: é justamente qual jogador corintiano terá o privilégio de erguer a taça, a tão cobiçada taça da Libertadores e, melhor de tudo, poder dançar um tango abrasileirado, bem do nosso jeito mesmo!
É meu amigo, aqui na terra tão jogando futebol... e se a coisa aqui tá preta, vai ficar preta e branca, porque se o Corinthians ganhar este jogo, a cinza-paulicéia vai se tornar uma imensidão monocromática! E que me perdoe Mário de Andrade com seu versinho "odiamos as matinadas arlequinais" mas, se tudo der certo, amanhã será um dia insuportável: para os outros, não para nós!
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