Costumo comparar em certos pontos a indústria do futebol com a indústria da música. Posso enumerar aqui várias similaridades que existem entre elas e ainda sobram. Ambas criam estrelas idolatradas ao redor do mundo, movimentam milhões e milhões de dólares, são controladas por grandes empresários e assim como cada jogador tem sua fase de brilhar, o artista também tem seus 15 (talvez 30) minutos de fama. São cenários, eu diria, idênticos. Não raro é possível se ver um jogador com real talento nos times amadores e um péssimo em times profissionais, pois é necessário toda uma rede de contatos pra te colocar no topo. E em ambas indústrias, existem ramificações e criações de inúmeros empregos, sejam eles braçais ou burocráticos. Portanto, é o sonho de praticamente todo atleta do futebol ao redor do mundo se firmar no topo da carreira e entre as estrelas.
Digo isso não somente ciente de que há o inverso, mas também com o propósito de atentar para exatamente esse detalhe: a mazela existe também em ambos os casos. Não tem nada de glamuroso na vida de um jogador de time amador. Há, assim como na música independente, a ignorância de achar que o praticante de futebol amador que busca um lugar no topo (ou apenas gosta de praticar o esporte) é o chamado "vagabundo", termo ofensivo e dispensável pra quem segue na caminhada. Seguindo uma filosofia, não teríamos ninguém no topo mais. Quem está lá, é porque esteve lá embaixo antes.
A estrutura de um time amador muitas vezes é financiada por meio de projetos sociais e/ou bancada por modestas mensalidades pagas pelos pais dos atletas ou por eles mesmos. É ao mesmo tempo um investimento e um gasto em busca de lazer. O ato de praticar o esporte é pra muitos uma forma de diversão. Tocar o bonde com uma certa seriedade formaria uma ironia: aumentaria a diversão, pois o espírito de competição e acima de tudo, companheirismo, fica gravado em meio ao pano do uniforme feito precariamente e mais uma vez, financiado pelos próprios jogadores ou pela apertada condição financeira do clube.
O futebol (e a música) amador/independente é aquele que mostra, mais do que nunca, o amor pelo que se faz. Parece clichê de filme brasileiro, mas a verdade é que a cena do garoto que acorda às 07 da manhã no domingo pra calçar as chuteiras e poder marcar um gol com a esperança de algum olheiro na platéia lhe notar realmente existe e, mais que isso, é realidade em todo o país.
Como a mídia não vê interesse em divulgar o futebol amador (por motivos óbvios: futebol amador não gera renda nem notícia de primeira capa), essa modalidade do esporte fica lá, esquecida e muitas vezes, com apenas a família e alguns amigos prestigiando na arquibancada feita com ferro soldado e tábuas. Quando ganha espaço nos jornais, apenas um rodapé ou maior destaque no caso do veículo ser local. E a vontade dos jogadores continua, e por um só motivo: amor pelo que se faz.
Futebol também pode (aliás, DEVE) ser encarado como arte e forma de expressão. Há sim o jogador que, apesar de sonhar em vestir a camisa de um grande clube profissional, tem a ciência de que isso é a consequência do treinamento e trabalho árduo que é desenvolvido ao longo dos anos. E que, caso não alcance o verdadeiro estrelato (coisa que somente 1% dos jogadores conseguem), fica a satisfação de ter feito o que se gostava e seguir um outro rumo profissional na vida, sem qualquer sentimento de fracasso. Muito pelo contrário, pelo sentimento de conforto de poder se alimentar da forma que bem quiser e não ser julgado se sua barriga crescer alguns centímetros.
Constitui na verdade, um problema comportamental do país inteiro de não dar valor ao que é feito sem exibição da mídia ou que tenha dinheiro pesado no meio.
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