No futebol, assim como na vida, as melhores situações são aquelas que fogem dos planos. Que emergem sorrateiramente do inesperado e nos transborda subitamente de alegria. Foi isso que aconteceu ontem.
Flamengo e Santos não foi um jogo, foi um espetáculo digno de aplausos de pé. Daqueles que você senta na cadeira e não ver o tempo passar e que qualquer piscadela custa caro.
O local não poderia ser outro: a Vila dos sonhos, a casa do Rei. A Vila Belmiro que testemunhou goleadas do Santos e golaços de Pelé, Pepe e Coutinho. Mas também a Vila que, democraticamente, viu Marcelinho Carioca aplicar um lençol no zagueiro santista e bater de primeira na saída do goleiro-príncipe. A vila que assistiu Ronaldo Nazário encobrir Fábio Costa em uma de suas últimas e belas aparições no mundo mágico da bola.
De um lado o Flamengo: a máquina de empatar. O campeão carioca 2011, o "time de resultados", que irritava torcida com seu futebol pragmático e pouco empolgante. Do outro lado o Santos, o "time dos sonhos", o campeão paulista e senhor das Américas, agora reforçado pelo retorno dos astros Neymar e Paulo Henrique Ganso e também pelo kicker Elano.
Nos primeiros 20 minutos vi o Flamengo tocar melhor a bola e ser surpreendido três vezes por toques, tabelas e dribles geniais. Neymar parecia estar possuído pela melhor inspiração do ano. Escutei um murmurinho na mesa ao lado: "vira três, acaba seis". E quando vi Deivid perder um gol inacreditável dentro da pequena área, a profecia patife parecia se cumprir.
Mas o Flamengo, sem nenhum pudor, foi pra cima e conseguiu um incrível empate ainda no primeiro tempo. Antes disso, Neymar continuava a infernizar a defesa rubro-negra até que Williams comete um pênalti que, se convertido, consolidaria a vitória santista. A pior idéia foi deixar Elano cobrar a penalidade. Na tentativa de humilhar Felipe, o atacante santista desferiu um peteleco frugal que mal ofendia um inseto, quem dirá um goleiro. Resultado: a bola foi parar mansamente nas luvas de Felipe que ainda debochou fazendo embaixadinhas na frente de um Elano atônito.
No segundo tempo, Neymar – ironicamente de topete aplainado – volta a deixar o Santos na frente com mais um golaço. E, mais uma vez, o Flamengo não se entregou. Ronaldinho Gaúcho desequilibrava. Uma cobrança de falta que só imaginavámos acontecer em videogame. Rasteira, embaixo da barreira, onde ninguém imaginava. R10, em sua melhor partida pelo Flamengo, fez mais um gol numa bela arrancada de Thiago Neves.
Final de jogo: Santos 4x5 Flamengo. O resultado foi o menos importante. Santos e Flamengo demonstraram coragem em jogar ofensivamente. Em tempos de futebol medíocre e retranqueiro, onde é mérito se abdicar da condição de ataque e jogar por uma bola vadia, Flamengo e Santos brilharam. Devolveram ao futebol brasileiro a sua matriz mágica. Um verdadeiro louvor ao futebol.
Submeto-me a assistir mais uns 300 jogos ruins à espera de um jogaço desses. Vale a pena!
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