Domingo à noite, pelo campeonato paulista, o modesto Ituano vencia o São Paulo por 2 a 0 até o início do segundo tempo. Mas, com apenas 30 minutos de jogo, o time da capital fez 4 gols e aconteceu o revés (in)esperado. O que seria a primeira derrota do tricolor paulista em 12 jogos transformou-se numa goleada, com direito a festa da torcida na casa do adversário.
Casos assim são comuns nos campeonatos estaduais Brasil a fora – meras competições motivacionais que funcionam como alento estatístico de vitórias, gols e títulos dos chamados “grandes” clubes. Afinal de contas, não existe grandeza sem pequeneza.
O enorme fosso técnico e físico que separa a capital do interior desanima qualquer entusiasta do futebol alternativo do interior. Didaticamente, podemos citar outras viradas em 2012, como a do Atlético-MG sobre o Villa Nova pelo campeonato mineiro ou do Botafogo sobre o Americano pelo carioca.
O Antigo Regime
No futebol, as mudanças são lentas e a hegemonia da tradição nos conduz quase sempre a prognósticos certeiros.
O desserviço prestado pelos velhinhos da FIFA/CBF em perpetuar as regras do jogo e as condições externas de favorecimento dos chamados “grandes” alijam as possibilidades de ascensão clubística e nivelamento técnico dos campeonatos.
Todo ano, acontece aquela mesma história fatídica do clube do interior que se destaca no estadual ou consegue acesso à primeira divisão do Brasileirão. Sua equipe, formada pelos chamados “pratas da casa” e outros renegados, tão prontamente é desmanchada no ano seguinte.
O desmonte financeiro dos pequenos ocorre, em muitos casos, apenas para recompor o banco de reservas dos grandes da capital.
A breve modernidade líquida
Tudo que é sólido se desmancha no ar... mas logo cristaliza-se novamente.
A hegemonia dos tradicionais clubes brasileiros foi duramente ameaçada no início dos anos 2000. O primeiro Davi do início do século foi o São Caetano. O clube do ABC paulista foi vice-campeão brasileiro em 2000 e 2001, vice-campeão da Libertadores em 2002 e campeão paulista em 2004. O time de Jair Picerni que amedrontava os grandes fez história e revelou bons jogadores como Adhemar, Serginho (RIP) e Adãozinho.
(São Caetano, campeão paulista de 2004)
Ainda no estado de São Paulo, Santo André e Paulista chutaram todo o favoritismo dos grandes e levaram a Copa do Brasil em 2004 e 2005, respectivamente.
Em Minas Gerais, o Ipatinga surgiu como a maior força do interior. Foi campeão mineiro em 2005 e chegou a disputar a série A do Brasileirão em 2008.
Cricíuma – campeão da Copa do Brasil de 1991; Juventude – campeão da Copa do Brasil em 1999; Bahia de Feira – campeão baiano em 2011, Fluminense e Bahia na série C do Brasileirão, América-MG na série B do campeonato mineiro... são apenas raras exceções à uma regra que se consolida cada vez mais.
A força da tradição e o regresso conservador
A história do futebol brasileiro vem regredindo nos últimos anos. A diferença volta a ser nítida entre os pares capital-interior, grandes-pequenos, sul/sudeste-norte/nordeste.
A tradição do futebol brasileiro vem se confirmando com fatos e números.
Veja:
- Desde 2004, o título de campeão brasileiro permanece no eixo Rio-São Paulo;
- O último campeão inédito do Brasileirão foi o Atlético-PR em 2001;
- As últimas três edições da Copa do Brasil foram conquistadas por times do eixo Rio-São Paulo;
- Nove clubes brasileiros (São Paulo, Santos, Cruzeiro, Grêmio, Internacional, Vasco, Palmeiras, Flamengo e Fluminense) praticamente monopolizam a participação dos brasileiros na Taça Libertadores da América;
- Bahia, Fluminense e Atlético-GO voltaram a ser grandes;
- A última participação de um clube do Norte na série A do Brasileirão foi em 2005 com o Paysandu;
- Os últimos clubes pequenos campeões do Paulistão foram o São Caetano em 2004 e o Ituano em 2002;
- Os últimos clubes pequenos que venceram o Campeonato Mineiro foram o Ipatinga em 2004 e a Caldense em 2002;
- Em 2000, o Caxias sagrou-se campeão gaúcho. De lá pra cá só deu a dupla Grenal;
- O Volta Redonda conquistou a Taça Guanabara em 2005 e o Madureira levou a Taça Rio em 2006. Desde então, sem surpresas no campeonato carioca.
O Brasil é um país de dimensões continentais. Como se cada estadual fosse um campeonato nacional de um país europeu – resguardadas suas devidas proporções financeiras e estruturais.
As desigualdades regionais reverberam no mundo futebol. Em cada canto do país, existe um clube nascendo ou sobrevivendo com parcos investimentos e sem apoio das mídias convencionais.
Sem estádios de futebol e centros de treinamento adequados, o país da Copa insiste em velhas formas comprovadamente ineficientes. É ilícito pensar no futebol brasileiro com tantos clubes, tantos campeonatos, tantos jogos, pouca estrutura, ingressos cada vez mais caros... a paciência do torcedor tem limite.

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