Tragédias de uma estrela solitária

9 de março de 2012
Garrincha, Heleno de Freitas e Jóbson (Esq. para dir. Garrincha, Heleno de Freitas e Jóbson)
O poeta Nelson Rodrigues já dizia que os alvinegros tem "vocação para a tragédia". Pois a história persiste em confirmar suas palavras através de dramas que aflingem não somente a torcida, como também a vida de suas solitárias estrelas.  Os dois maiores personagens do clube, Heleno de Freitas e Mané Garrincha, morreram pobres e na sarjeta.
Heleno foi o maior ícone do futebol carioca dos anos 40 e primeiro craque problema do futebol mundial. O "jogador galã", assim apelidado, foi pioneiro no estilo de jogador bon vivant, polêmico, mas genial na nas quatro linhas. Um mix de Romário, pelo faro de gol, com o temperamento de Edmundo, a classe de Falcão e inteligência de Tostão, por se tratar de um advogado e bem esclarecido. Heleno morreu internado em um hospício vítima de sífilis cerebral contraída por meio de seu estilo de vida desregrado e intenso. Uma carreira meteórica que transitou das glórias e  centro dos holofotes ao fundo do poço, anonimato e morte precoce.

(Rodrigo Santoro interpreta Heleno de Freitas no cinema em: "Heleno - O príncipe maldito")
O "Anjo das pernas tortas" não teve um destino muito diferente. Infinitamente genial, Mané Garrincha recriou o futebol utilizando suas pernas como pincéis que contornam a transição de uma era da arte para a outra. O futebol se tornou espetáculo após Garrincha. E o artista principal desse espetáculo morreu pobre e bêbado, caído em uma rua do subúrbio carioca. Um triste fim para aquele que foi conhecido como o "A alegria do povo".
Uma história de traços semelhantes está sendo escrita pelo talentoso Jobson. Posso soar exagerado aos leitores, mas vi Jobson nascer com um potencial incrível para craque e não o vejo em outra posição a não ser ao lado dos grandes atacantes do futebol brasileiro na atualidade, não fosse o seu talento também para o drama. Tal qual Heleno e Mané, Jobson é um dependente químico e luta contra esse mal há anos. A torcida do Glorioso acompanha esse drama de perto e com apreensão enquanto eu penso: Jobson não poderia vestir outra camisa a não ser a do Botafogo. E é para ela que nessas indas e vindas e ele sempre acaba voltando.
Há nessa linda camisa que tanto respeito um imã para histórias trágicas e por isso esse é o clube que mais inspirou obras literárias no futebol brasileiro. Ainda torço por Jóbson. E tenho certeza que no coração de todo botafoguense e torcedor do bom futebol há uma enorme esperança de que no desfecho haja glórias maiores que as tragédias,  ao menos nesta história.

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